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segunda-feira, 27 de março de 2017

Drama na Idade Média [Os Pilares da Terra]




SINOPSE: Inglaterra, meados do século XII. Em uma terra abalada por sangrentas batalhas pela sucessão ao trono do Henrique I, um homem luta contra tudo e todos para levar a cabo a minuciosa construção de uma catedral gótica, digna de tocar os céus. Ao redor da igreja e de seus personagens, forma-se um mosaico de um tempo conturbado, varrido por conspirações, intrincados jogos de poder, violência e o surgimento de uma nova ordem social e cultural. Aclamada como a obra-prima de Ken Follet, ‘Os Pilares da Terra’ é sucesso entre público e crítica por mais de duas décadas, com mais de 18 milhões de exemplares vendidos no mundo todo. 



A arte tem a força de ampliar a visão da realidade ao criar perspectivas para a compreensão da História, e de contribuir para fortalecimento de nossas capacidades cognitivas ao possibilitar a reflexão sobre a natureza humana em suas múltiplas facetas. É sob essa possibilidade, na Literatura, que Ken Follet escreveu um dos Romances de ficção histórica mais emocionantes dos últimos 20 anos – Os Pilares da Terra.

Para conferir veracidade à ambientação¹ e ao ambiente² da trama, Follet contou com o conhecimento de renomados Historiadores como Jean Gimpel, Geofrey Hindley, Warren Hollister e Margaret Wade Labarge. A contribuição destes especialistas em Idade Média são perceptíveis em vários momentos da narração desenvolvida por Follet, que fornece ricos detalhes do contexto político, religioso, cultural e arquitetônico da época. O conjunto dos fatos ocorrem num espaço de tempo de 51 anos, narrados cronologicamente em: Prólogo (1123); Parte um (1135-1136); Parte dois (1136-1137); Parte três (1140-1142); Parte quatro (1142-1145); Parte cinco (1152-1155); Parte seis (1170-1174).


A arquitetura é um dos conteúdos mais importantes em Os Pilares da Terra
Num texto de grande beleza estética, o leitor é levado ao passado numa experiência verossímil da anarquia que assolou a Inglaterra no século XII e as duras consequências na vida dos ingleses daquele período. A interação dos personagens entre protagonistas e antagonistas e a percepção de seus sofrimentos, medos, paixões, sonhos, crenças e ambições, proporcionam momentos de profundas e fortes emoções ao longo da história. 

É também notável a variedade de temas abordadas no livro, na qual três me chamaram atenção pela magistral exposição: a injustiça contra as mulheres, a homofobia, e o papel desempenhado pela Igreja na sociedade da época, sendo esta o centro do enredo, mostrada em dois lados opostos, o da caridade, perdão, e amor (representados no personagem Philip) e o lado da corrupção e hipocrisia (representados no ambicioso e perverso Waleran).
Lado esquerdo: Prior Philip - um dos mais belos e inspiradores personagens
Lado direito: Jhonatan e Tom Construtor 
Por fim, repleto de conspirações e reviravoltas dramáticas, a habilidade de Follet em amarrar as pontas num grandioso clímax, tornam o desfecho da obra um grandioso, sensível e emocionante espetáculo à parte. Os Pilares da Terra é um monumento literário.


***
¹ Ambiente: caracteriza determinada situação dramática em determinado espaço. O ambiente é o "clima, a atmosfera que se estabelece entre as personagens em determinada situação dramática [...]. Um mesmo espaço pode apresentar diversos ambientes" (FRANCO JR, 2003, p.44).

² Ambientação: Compreende "a identificação do modo como o ambiente é construído pelo narrador e, portanto, ela identifica também o rabalho de escrita do autor do texto, as escolhas que ele faz para construir deste ou daquele modo os ambientes" (FRANCO JR, 2003, p. 44). 

sábado, 10 de dezembro de 2016

[A Guerra dos Mundos] - Indispensável aos fãs de ficção-científica

SINOPSE: “Eles vieram do espaço. Eles vieram de Marte. Com tripés biomecânicos gigantes, querem conquistar a Terra e manter os humanos como escravos. Nenhuma tecnologia terrestre parece ser capaz de conter a expansão do terror pelo planeta. É o começo da guerra mais importante da história. Como a humanidade poderá resistir à investida de um potencial bélico tão superior?”




A Guerra dos Mundos, publicado pela primeira vez em 1998, é um clássico do escritor britânico H. G Wells, sendo considerado dos primeiros livros a narrar uma invasão catastrófica de alienígenas hostis. Wells foi pioneiro em usar a ficção-científica para criticar a sociedade de sua época e a questionar a fragilidade humana no universo em que vivemos, tornando sua obra uma experiência obrigatória aos fãs de ficção-científica e ufologia.


Ambientada na Inglaterra, no final do século XIX, a história é narrada pelo protagonista, cujo o nome não é revelado, que testemunha acontecimentos destrutivos que ocorrem após um cilindro de Marte cair na terra. Vão tirar mais proveito da ambientação os leitores que são familiarizados com a geografia de Londres, ou que conheçam as diversas cidades e regiões em que se passam a história. Porém, os que ignorarem os diversos nomes dos lugares que surgem a cada página, não serão prejudicados no entendimento da narração mas, na dúvida, poderão pesquisar um mapa da época à medida em que a invasão dos marcianos ocorrem.


Com uma linguagem simples, Wells, que possuiu uma formação básica de ciência, recorreu a diferentes áreas como Astronomia, Biologia e Teoria Evolucionista para construir sua narrativa e, conferir a esta (utilizando as palavras Brian Aldiss), uma força quase mitológica e poética. A existência de vida inteligente fora do Planeta Terra ainda é um mistério para a humanidade, mas será que, na existência de seres superiores ou mais evoluídos do os seres humanos, estaríamos em importância afetiva para eles assim como os micro-organismos estão para nós? E se eles pudessem invadir nosso planeta afim de explorar nossos víveres, estaríamos condenados à destruição assim como as formigas de um quintal prestes a ser limpo? Wells faz ácidas críticas às instituições políticas, militares e religiosas que durante séculos da história foram os “brutos ETs” a passar por cima de homens e mulheres em diferentes cantos do mundo. 



A edição especial capa-dura celebra os 150 anos do autor e contém ilustrações, tradução revisada e extras que dispensam qualquer resenha que se possa fazer à mais. É, sem dúvidas, um livro que merece um lugar especial na estante de todo leitor e fã de ficção-cientifica. 


Ilustração: Henrique Alvim Corrêa 


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Golem & o Gênio [Resenha sem Spoiler]

Sinopse: "Os confrontos e as barreiras vividas por duas culturas tão próximas, ainda que aparentemente opostas. Em Golem e o Gênio, premiado romance fantástico que a DarkSide® Books traz ao Brasil em 2015, o leitor se transporta à Nova York da virada do século XX, em uma viagem fascinante através das culturas árabe e judaica. Seus guias serão poderosos seres mitológicos. Chava é uma golem, criatura feita de barro, trazida à vida por um estranho rabino envolvido com os estudos alquímicos da Cabala. Ahmad é um gênio, ser feito de fogo, nascido no deserto sírio, preso em uma antiga garrafa de cobre por um beduíno, séculos atrás. Atraídos pelo destino à parte mais pobre de uma Manhattan construída por imigrantes, Ahmad e Chava se tornam improváveis amigos e companheiros de alma, desafiando suas naturezas opostas. Até a noite em que um terrível incidente os separa. Mas uma poderosa ameaça vai reuni-los novamente, colocando em risco suas existências e obrigando-os a fazer uma escolha definitiva.”



Golem & o Gênio foi minha primeira aquisição da editora DarkSide, famosa por publicar bons livros em excelentes edições físicas. Com este título não é diferente, a exótica arte da capa bem como os minuciosos detalhes externos e internos, fazem do premiado livro de Helene Wecker um excelente item decorativo na prateleira. Mas o que dizer do conteúdo? 

Ao percorrer pelas 514 páginas, o leitor se sentirá em vários momentos num emaranhado  de lógicas e ilógicas, realidades e ilusões. Isso porque estamos falando de uma história de fantasia que mistura culturas árabe e judaica, mitologia popular, ficção histórica e fábula mágica. E o que não devemos fazer quando estamos num passeio místico? Perguntar o porque de tudo, apenas entrar na história e permitir-se ser conduzido pelo autor. Ademais, longe de ser simplista, Helene fornece ao longo da trama descrições exatas e verdadeiras de como era Nova Iorque na virada do século XX, suas ruas, calçadas, praças, monumentos bairros nobres, e principalmente os cortiços de imigrantes judeus e árabes.




Ao passo que adquirimos um bom conhecimento cultural dentro das histórias e personagens do lado judaico, é somente no núcleo árabe (protagonizado pelo Djim ou Gênio) que o leitor vive os momentos da grandeza mítica, numa qualidade narrativa que nos faz subir num tapete voador e viajar pelo deserto Sírio, descobrindo ou imaginando coisas incríveis (eu fiquei maravilhado com o Castelo de vidro do Djim em pleno deserto). Pode ser que o motivo da parcialidade seja pessoal, sou um grande admirador da mitologia árabe, mas creio que tem sido e será uma experiência apreciada por vários leitores. Por outro lado (e por motivos óbvios) a autora optou por explorar a religião judaica ao invés do islamismo. 




Talvez para alguns seja "frustrante" constatar que tanta riqueza seja "apenas" o véu de uma história de amor e seus momentos clichês, embora isso não seja categoricamente um defeito, pelo contrário, traz boas lições de vida. Os dois personagens principais em suas complexidades, parte pela natureza mágica e parte pelo desafio de se fazê-los funcionar numa história como essa, trazem consigo um reflexo da inquietude e da  curiosidade da humanidade. Fomos feitos para servir? Somos independentes? Somos melhores quando servimos? Até que ponto somos imprudentes quando livres?    


Com gratas surpresas no final e pontas bem amarradas, a leitura de Golem & o Gênio é gratificante, mesmo pra quem não gosta do gênero Romance. Helene Wecker não teve medo de ousar e criou algo inexplicavelmente original em seu livro, que certamente será mais do que um item decorativo na estante! 

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

[It - A Coisa] Primeira experiência no Terror

SINOPSE: "Durante as férias escolares de 1958, em Derry, pacata cidadezinha do Maine, Bill, Richie, Stan, Mike, Eddie, Ben e Beverly aprenderam o real sentido da amizade, do amor, da confiança e... do medo. O mais profundo e tenebroso medo. Naquele verão, eles enfrentaram pela primeira vez a Coisa, um ser sobrenatural e maligno que deixou terríveis marcas de sangue em Derry. Quase trinta anos depois, os amigos voltam a se encontrar. Uma nova onda de terror tomou a pequena cidade. Mike Hanlon, o único que permanece em Derry, dá o sinal. Precisam unir forças novamente. A Coisa volta a atacar e eles devem cumprir a promessa selada com sangue que fizeram quando crianças. Só eles têm a chave do enigma. Só eles sabem o que se esconde nas entranhas de Derry. O tempo é curto, mas somente eles podem vencer a Coisa. Em It - A Coisa, os amigos irão até o fim, mesmo que isso signifique ultrapassar os próprios limites."



Sempre me falaram que Stephen King é o rei dos livros de Terror, e, visto que eu ainda não tinha lido nenhum livro do gênero, decidi começar pela obra que alguns chamam de obra-prima do renomado escritor: 'It' ou (It - A coisa - edição brasileira). Atravessar pelas mais de 1.100 páginas do livro (mesmo no Kindle) foi um grande feito secundário, o primário foi sair psicologicamente ileso dessa experiência literária perturbadora para um leitor novato no gênero.

O enredo do livro é centralizado na cidade fictícia de Derry, que desempenha um papel fundamental na história. Explorar Derry sob a ótica de todos personagens ao longo do livro é como explorar uma mansão velha e mal assombrada, onde até o ar que se respira é hostil. Nesta pequena cidade está o rancor e o medo mas também está a nostalgia da infância amarga e ao mesmo tempo doce dos personagens principais: Bill, Richie, Stanley, Eddie, Ben, Mike e Beverly. Se você  for um leitor adulto, alguns desses sete personagens, ou todos eles, vão ser um espelho vivido da sua própria infância. Conhece-los e ter criado vinculo emocional com eles foi algo que eu não esperava, mas o pior foi ter me dado conta que havia me apegado a personagens dentro de um livro de terror e, da metade pro fim, descobri que segui-los seria uma experiência agonizanteMera coincidência na experiência de um leitor ou resultado da condução extremamente talentosa de um contador de histórias?

Em algumas passagens King não se importa em adiantar o que vai acontecer antes de narrar o evento propriamente dito, como se no fundo estivesse desafiando o leitor: “eu não vou te fazer surpresas com o que vai acontecer, vou te surpreender pela forma que vou contar.”  A primeira peça do quebra cabeça é lançada no prólogo, que se passa em 1958, a partir disso a história se alterna entre o ano de 1985 e 1958, entre a infância e a vida adulta (atual) dos personagens. Talvez uma das pedras no caminho para alguns leitores seja o fato do King fazer inúmeras referência a músicas, livros, programas de TV, cantores e celebridades americanas que viveram na época de 1958-1985, o que pode deixar alguns leitores como peixe fora d’agua em alguns momentos. No entanto, temos de convir que isso não é um defeito da obra e os mais espertos podem fazer disso uma oportunidade para aprender mais sobre a cultura americana daquele tempo. 

Não considero defeito o excesso de histórias paralelas narrada pelos personagens (o que faz alargar o volume do livro), uma vez que tais excessos são usados para uma imersão mais qualificada ao objetivo do autor. O fato é que King soube os momentos exatos de acelerar, freiar, de levar o leitor para Derry, de finalmente coloca-lo no mesmo "barco" do "clube dos otários" e soltar a "corda" do mesmo na "correnteza" final usando uma narrativa roteirizada em ritmo alucinante que sucede os eventos que fecham o quebra-cabeça rumo ao clímax da história. 

Habilidoso nas passagens assustadoras, King não perdoa em transmitir medo em descrições convincentes de horrores que permearam minha cabeça em vários momentos, mesmo depois de ter largado o livro as cenas imaginadas á partir pelas palavras do autor me perseguiram durante a noite...e de dia. Será se o fato de sempre ter tido medo de palhaços tornou tais passagens mais assustadoras do que elas realmente são? Talvez, mas há uma lista de elementos da história que já foram ou são motivos de fobia em muitas pessoas: Palhaços, Balões, Pias, Banheiro, Álbum de fotos, Esgotos , Pássaros, Aranhas, e assim por diante. Se não são, é possível que algum destes se tornará.

É importante comentar também que a história tem passagens bastante polêmicas que deve ter incomodado muitos leitores dos anos 80 e certamente vai incomodar leitores atuais. Defeito do livro? Apelação do autor? Eu diria que não pois o gênero Terror tem como uma de suas características chocar ao associar o sobrenatural em linguagens corporais. Apesar de nunca ter lido algo do gênero, eu ja estava ciente do que poderia encontrar, além disso, embora tenha grande carga tensa e negativa, o livro também conta com momentos leves. Ainda sim, não recomendo aos que são sensíveis de consciência.

Além do sobrenatural ou através sobrenatural, It traz aos leitores adultos (ou quem está entrando na fase adulta) tocantes reflexões sobre a infância, seus mistérios, desejos, sonhos e medos. Terminei o livro querendo sair psicologicamente de Derry, querendo tirar a imagem do palhaço Pennywise da cabeça mas com uma grande satisfação de ter conhecido personagens maravilhosos e ter sentido de perto seus medos, angustias e superação. Conhecer Stephen King por através desse livro foi uma experiência diferente e marcante, embora eu não saiba se quero entrar numa dessas de novo. O talento genial desse autor não é para os fracos.